quinta-feira, 22 de julho de 2010

O PENITENTE PERFEITO (C.S Lewis)

Texto retirado do Livro "Cristianismo Puro e Simples" de C.S. Lewis, e uma ótimo livro se puder compre e surpreenda-se como pode ser puro e simples e cristianismo..

  
Somos confrontados, então, com uma alternativa assustadora. Ou esse homem de quem estamos falando era (e é) o que dizia ser, ou era um lunático ou coisa pior. Ora, parece-me óbvio que ele não era nem um lunático nem um demônio; conseqüentemente, por mais estra­nho, assustador ou insólito que pareça, tenho de aceitar a idéia de que ele era, e é, Deus. Deus chegou sob for­ma humana no território ocupado pelo inimigo.
Agora, qual o sentido disso tudo? O que ele veio fazer aqui? Bem, veio ensinar, é claro. No entanto, assim que começamos a examinar o Novo Testamento ou qualquer outro escrito cristão, descobrimos que eles falam constan­temente de algo bem diferente: falam de sua morte e ressurreição. É evidente que os cristãos julgam estar aí o ponto central da história. Acreditam que Jesus veio à Terra especificamente para sofrer e ser morto.
Ora, antes de me tornar cristão, eu tinha a impres­são de que a primeira coisa em que os cristãos tinham de acreditar era uma teoria particular sobre o propósito dessa morte. De acordo com essa teoria, Deus queria castigar os homens por terem desertado e se unido à Grande Rebelião, mas Cristo se ofereceu para ser puni­do em lugar dos homens, e Deus não nos puniu. Hoje admito que nem mesmo essa teoria me parece mais tão imoral e pueril quanto me parecia, mas não é essa a ques­tão que me ocupa. O que vim a perceber mais tarde é que o cristianismo não é nem essa teoria nem nenhuma outra. A principal crença cristã é que a morte de Cristo de algum modo acertou nossas contas com Deus e nos deu a possibilidade de começar de novo. As teorias so­bre como isso ocorreu são outro assunto. Várias teorias foram formuladas a esse respeito; o que todos os cristãos têm em comum é a crença na eficácia dessa morte. Vou lhes dizer o que penso do assunto. Toda pessoa de juí­zo sabe que, quando estamos cansados e famintos, um prato de comida nos fará bem. Já a teoria moderna da nutrição, com suas vitaminas e proteínas, é coisa bem di­ferente. As pessoas já comiam para sentir-se bem muito antes de ouvir falar de vitaminas. Se algum dia a teoria das vitaminas for abandonada, continuarão almoçando e jantando como sempre fizeram. As teorias a respeito da morte de Cristo não são o cristianismo: são explica­ções de como ele funciona. Os cristãos não precisam to­dos concordar com a importância delas. Minha própria igreja, a Anglicana, não propõe nenhuma delas como a única teoria correta. A Igreja Romana vai um pouco mais longe. Creio, porém, que todas concordam que a coisa em si é infinitamente mais importante que qualquer explicação produzida pelos teólogos. Elas provavelmen­te admitiriam que nenhuma explicação é perfeitamen­te adequada à realidade. Como disse no prefácio do livro, no entanto, eu sou apenas um leigo, e nesse ponto as águas começam a ficar profundas. Só posso lhes dizer como eu, pessoalmente, encaro o assunto.
Do meu ponto de vista, o que se pede que aceite­mos não são as teorias. Sem dúvida, muitos de vocês já leram os trabalhos de Jeans ou de Eddington[1]. O que eles fazem, quando tentam explicar o átomo ou coisa parecida, é nos dar uma descrição a partir da qual po­demos elaborar uma imagem mental. Em seguida, nos advertem de que não é nessas imagens que de fato acre­ditam, mas sim numa fórmula matemática. As imagens só existem para nos ajudar a compreender a fórmula.
Não são verdadeiras como a fórmula é verdadeira; não representam a realidade, mas algo que se lhe assemelha. Têm a função de ajudar; se não ajudam, podem ser deixadas de lado. A realidade em si não pode ser repre­sentada em imagens, só pode ser expressa em termos matemáticos. Estamos numa situação parecida. Acredi­tamos que a morte de Cristo é o ponto exato da história no qual algo externo a nós, absolutamente inimaginá­vel, se manifestou em nosso mundo. Se não consegui­mos nem mesmo fazer uma imagem dos átomos que compõem esse mundo, é claro que não conseguiremos imaginar essa realidade superior. Aliás, se nos constatás­semos capazes de compreendê-la integralmente, esse fato por si só mostraria que ela não é o que afirma ser - o inconcebível, o incriado, algo de fora da natureza que penetra nela como um raio. Você talvez pergunte de que isso nos serve se não podemos compreendê-lo. A resposta, porém, é fácil. Um homem pode jantar sem saber exatamente de que modo os alimentos o nutrem. Da mesma forma, pode aceitar a obra de Cristo sem en­tender como ela funciona; aliás, é certo que, para enten­dê-la, tem de aceitá-la primeiro.
Dizem-nos que Cristo morreu por nós, que sua mor­te nos lavou de nossos pecados e que, morrendo, ele destruiu a própria morte. Essa é fórmula. Esse é o cris­tianismo. E nisso que acreditamos. A meu ver, todas as teorias que construímos para explicar como a morte de Cristo operou tudo isso são perfeitamente dispensá­veis: meros esquemas ou diagramas que podem ser dei­xados de lado quando não nos ajudam e que, mesmo quando são úteis, não devem ser tomados pela própria realidade. Não obstante, algumas teorias merecem um exame mais detido.
agüentar as conseqüências" e "pagar a conta" - ora, todos sabem que, quando uma pessoa cai num buraco, o problema de tirá-la de lá geral­mente recai sobre os ombros de um bom amigo.
Em que tipo de "buraco" caíra o homem? Ele pro­curara ser auto-suficiente e se comportara como se per­tencesse a si mesmo. Em outras palavras, o homem decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; é um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perdão, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a começar uma vida nova do zero — só isso pode nos "tirar do buraco". Esse processo de rendição, movimen­to de marcha a ré a toda velocidade, é o que o cristia­nismo chama de arrependimento. Mas, veja só, o arre­pendimento não é nada agradável. E bem mais difícil que simplesmente engolir um sapo. Significa desapren­der toda a presunção e a obediência à vontade própria que nos foram incutidas por milhares de anos; signifi­ca matar uma parte de si mesmo e submeter-se a uma espécie de morte. Na verdade, só um homem bom pode arrepender-se. E isso nos leva a um paradoxo. Só uma pessoa má precisa do arrependimento, mas só uma pes­soa boa consegue arrepender-se perfeitamente. Quan­to pior você é, mais precisa do arrependimento e me­nos é capaz de arrepender-se. A única pessoa capaz de arrepender-se perfeitamente seria uma pessoa perfeita - e não precisaria fazê-lo em absoluto.
Lembre que esse arrependimento, essa entrega vo­luntária à humilhação e a um tipo de morte não é algo que Deus exige de nós para que nos aceite de volta ou algo do qual pode nos livrar, se assim decidir. É simples­mente uma descrição de como é o próprio retorno a Deus. Se pedimos que ele nos aceite sem esse arrepen­dimento, estamos na verdade pedindo para voltar sem voltar. Não é possível. Pois muito bem, temos de nos arrepender. Entretanto, a maldade que nos faz precisar disso nos impede de fazê-lo. Será que podemos arre­pender-nos se Deus nos ajudar? Sim, mas o que signi­fica essa ajuda? Significa que Deus, por assim dizer, co­loca um pouco de si mesmo em nós. Empresta-nos um pouco da sua razão e assim nos tornamos capazes de pensar; nos dá um pouco do seu amor e, dessa maneira, amamos uns aos outros. Quando ensinamos uma crian­ça a escrever, seguramos-lhe a mão, ajudando-a a dese­nhar as letras. Ou seja, ela só pode formar as letras por­que nós as formamos. Nós amamos e raciocinamos porque Deus ama e raciocina e, enquanto isso, segura a nossa mão. Se não tivéssemos caído, tudo iria de vento em popa. Infelizmente, em nosso estado atual, precisa­mos da ajuda de Deus para fazer algo que, pela sua pró­pria natureza, ele nunca faz: render-se, sofrer, subme­ter-se e morrer. A natureza divina não condiz em nada com esse processo. A estrada em que mais precisamos ser guiados por Deus é uma estrada que Deus, em sua própria natureza, nunca trilhou. Deus só pode partilhar conosco o que tem; mas ele não tem essas coisas em sua própria natureza....



[1] Provável menção aos astrônomos ingleses Arthur Stanley Eddington (1882-1944) e James Hopwood Jeans (1877-1946). (N. do R. T.)